Sob o tema “Terra em transe, imagens em movimento”, a vigésima quinta edição da Mostra de Audiovisual Universitário e Independente da América Latina - MAUAL evoca o legado de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, não como citação nostálgica, mas como chave de leitura para o presente.
Em 2026, ano em que a mostra atinge sua maturidade de 25 edições e o Cineclube Coxiponés se aproxima de celebrar seus 50 anos, somos atravessados por um tempo de tensões sociais e políticas, colonialidades veladas ou explícitas, guerras, disputas de narrativas, e intensas polarizações. Entre barbárie e resistência, autoritarismos e práticas coletivas, assistimos a tentativas de enfraquecer instituições democráticas e encaramos a evidência de que direitos conquistados não são, necessariamente, direitos garantidos. A democracia, mais do que algo dado, revela-se como campo instável, em permanente disputa — um verdadeiro transe social e histórico.
É nesse contexto que o cinema se afirma como sintoma de seu tempo e como forma de leitura crítica da realidade. Se o filme de Glauber, lançado em 1967, se constrói por meio de uma linguagem performática e fragmentada — encenando a crise política e a tensão entre arte e poder na América Latina —, o audiovisual contemporâneo, quase seis décadas depois, opera entre colapsos e deslocamentos, elaborando olhares sobre uma multiplicidade de mundos atravessados por crises sociais, políticas, culturais e ambientais.
A MAUAL reafirma, assim, seu compromisso com a circulação de produções audiovisuais latino americanas universitárias, independentes e, sobretudo, periféricas e fora do eixo, compreendendo-as como espaços fundamentais de fortalecimento democrático e de soberania cultural. Em um cenário em que a erosão da democracia também se dá pela exclusão simbólica e pela concentração de vozes, essas obras ampliam o espaço público ao colocar em circulação experiências, corpos e territórios historicamente invisibilizados. São contranarrativas que tensionam discursos hegemônicos, desnaturalizam hierarquias e reconfiguram a própria ideia de “povo” — não mais como abstração manipulável, mas como multiplicidade concreta de subjetividades e formas de vida.
Além disso, essas produções frequentemente emergem de práticas colaborativas, redes locais e processos comunitários, encarnando modos mais horizontais e participativos de criação. Ao descentralizar os meios de produção e difusão, não apenas representam outras dinâmicas sociais, mas exercitam, na prática, formas de convivência mais justas, plurais e solidárias. Nesse sentido, o audiovisual não apenas reflete sobre a democracia: ele a reinventa cotidianamente.
Ao longo de seus 25 anos de trajetória, a MAUAL se consolida como espaço de difusão da diversidade. Nesta edição, mais uma vez, a mostra se coloca como campo de resistência onde o ato de filmar se afirma como gesto urgente — um gesto de escutar o mundo antes que ele se cale, de inscrever imagens em movimento em meio ao transe, e de afirmar, mesmo diante do colapso, a potência do audiovisual como prática de imaginação política e de construção de futuros possíveis.
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