Ainda Sonho com o Mar (2026)
“Ainda Sonho com o Mar” (2026), dirigido por Alex de Souza, constrói uma narrativa sobre luto, memória e infância a partir da relação afetiva com o mar. O filme se inicia com uma declaração de amor à praia, atribuída inicialmente a “Anne”, até revelar que as palavras pertenciam à irmã falecida do narrador. A partir disso, o mar deixa de representar apenas um espaço físico e se transforma em território de lembranças e ausência.
O filme combina diferentes materiais e linguagens, utilizando gravações, fotografias de arquivo, stop motion, animações e objetos como areia, pedras, conchas e desenhos. Esses elementos são sobrepostos às imagens e à narração, criando uma estética artesanal que se aproxima metaforicamente do funcionamento da memória: fragmentada, afetiva e composta por pequenos vestígios. As imagens de arquivo de Anne reforçam essa dimensão nostálgica, reconstruindo sua presença por meio dos registros que permanecem.
O som, feito em conjunto por Lívia de Castro, Alex de Souza e Vinícius Saraiva, também possui papel fundamental. Além da narração, o filme utiliza sobreposições de vozes, risadas infantis e sons do mar, estabelecendo uma relação entre passado e presente. A trilha melancólica, de Lívia de Castro e Lee Deziderio, e as pausas na fala do narrador criam momentos de silêncio que permitem a emoção ser construída para além das palavras. Assim, a obra não apenas aborda a perda, mas permite que o espectador experimente como ela permanece presente.
O pai e a irmã, Anne, são apresentados pelas lembranças do narrador. O pai é descrito com empatia, enquanto Anne aparece como livre, espontânea e criativa. Frases deixadas por ambos antes de morrerem são incorporadas à narração, transformando suas próprias palavras em uma forma de permanência. A entrevista com a mãe, que também não aparece em quadro, reforça essa reconstrução de Anne por meio das memórias familiares.
Um dos aspectos mais sensíveis está na perspectiva infantil sobre a morte. Ao recordar que acreditava ser filho de Percy Jackson por gostar do mar e ter perdido o pai ainda criança, Vinícius encontra uma forma inocente de elaborar uma experiência que ainda não compreendia. Da mesma forma, o pequeno texto escrito aos cinco anos, no qual declara seu amor pelo pai, materializa a dimensão da perda por meio de uma memória concreta.
O cajueiro, visitado pela família, sintetiza a relação entre espaço e memória. Embora permaneça fisicamente, o lugar se transforma após as mortes e, ao mesmo tempo, oferece o conforto de saber que aqueles que partiram estiveram ali. Assim, “Ainda Sonho com o Mar” transforma paisagens, objetos, sons e registros familiares em vestígios de pessoas ausentes, investiga como uma criança aprende a conviver com a ausência e como a memória pode transformar um lugar de fuga em um lugar de permanência.
Por Sofia Nord




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