O sagrado e o erótico: o rompimento de doutrinas em Lascívia (2025)
O extremismo religioso, quando associado a interpretações rígidas e fundamentalistas da fé, pode estabelecer uma relação de controle sobre o corpo e a sexualidade, especialmente por meio da imposição de normas sobre desejo, comportamento e expressão individual. Nesse contexto, a sexualidade pode ser apresentada não como uma dimensão natural da experiência humana, mas como algo que deve ser reprimido, regulado ou associado à culpa. O curta-metragem Lascívia (2025) dirigido por Júlia Moreira, revela a relação de Helena e sua mãe, figura extremista religiosa, que impõe à filha o dever de seguir suas crenças e abdicar de seus próprios desejos e individualidade.
A obra utiliza da estética do terror, em contraste com o simbolismo religioso para desenvolver a opressão da mãe (Ecila Meneses) sobre Helena (Samires Costa) até sua emancipação das grades impostas à filha. O curta estabelece desde seu primeiro plano o contexto religioso que a narrativa elabora. Um plano geral da mãe escovando os cabelos de Helena sob um fino véu branco, uma cruz na extremidade superior direita do quadro e uma tímida luz amarelada em segundo plano. A mise en scene descreve em poucos detalhes a partir da direção de arte, assinada por Sabrina Passos, a santidade que será colocada em confronto em seus próximos minutos. Helena, então, é imersa em um sonho, onde o erótico e a sexualidade são trazidos a tona. O filme muda de tom, a fotografia é tomada pelo vermelho, uma mulher vestida de vermelho (Karla Fonseca) sussurra o nome de Helena, um plano geral apresenta as duas personagens em uma cama, com uma vulva sobre elas, colocando em contraste a santidade exposta anteriormente. Tal mudança de cor na iluminação das cenas, além do simbolismo atrelado a elas, também é uma das principais escolhas estéticas em filmes de terror para a construção da ambientação inquieta do gênero. Ademais, a banda sonora do curta utiliza, também, de “drones” sonoros, sons graves e constantes frequentemente utilizados em películas de terror para a aclimação tensa dessa categoria fílmica. Mais adiante na obra, em seu segundo sonho com a figura vermelha, Helena se entrega a seus desejos, a fotografia, de Luisa Bandeira, agora utiliza de planos mais próximos e detalhes das personagens aos beijos e rindo. Sobreposições de planos e variações da velocidade do obturador apresentam o êxtase da personagem. Por fim, após render-se a lascívia, Helena rompe as correntes da opressão religiosa, cortando o próprio cabelo, escovado pela mãe no primeiro plano do filme.
Portanto, Lascívia constrói a emancipação de Helena a partir do confronto entre a repressão religiosa e a descoberta da própria sexualidade, utilizando os elementos do terror como representação visual e sonora desse conflito. A transformação da fotografia, da composição dos planos e da banda sonora acompanha o percurso da personagem, partindo da contenção e da rigidez religiosa até a manifestação de seus desejos. Representando não apenas a ruptura com a figura materna, mas também a apropriação do próprio corpo e da própria individualidade.
Por Gabriel Padilha




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