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“Nosso Corpo Negro”: O espaço urbano e o caminho para a transformação

Foto do escritor: Cine Coxipónes
Cine Coxipónes
há 7 horas
3 min de leitura

            Nosso Corpo Negro (2025), dirigido por Ricardo Cruz, é um filme experimental de poesia marginal produzida em Cuiabá. O espaço urbano é peça chave no curta-metragem que já começa com “Estou extenuada pelo escárnio em meu derredor”, frase pintada no casarão da Rua Pedro Celestino que implora por atenção das autoridades ao cuidado pelos prédios tombados como patrimônio histórico. Em vez de seguir o sentido original da frase, Nosso Corpo Negro se apropria da fala e reorganiza suas palavras nos capítulos Derredor, Escárnio e Extenuada, fazendo com que a travessia pelo centro histórico também participe dessa inversão e também da mudança de tema. Depois do prólogo na Praça da Mandioca, o filme permanece ali em Derredor, desloca-se pela rua até a escadaria em Escárnio e, por fim, retorna à Praça da Mandioca em Extenuada.    

O movimento de ir e voltar, portanto, não é apenas um percurso pelo centro histórico da cidade: ele acompanha a desconstrução da frase e a transformação de seu sentido. Aquilo que originalmente aparece como uma declaração de exaustão é reorganizado pelo filme até chegar ao capítulo Extenuada, não mais como um ponto de chegada marcado exclusivamente pelo esgotamento, mas como um lugar de calma e possibilidade de futuro.         

Essa escolha espacial estabelece também uma relação entre diferentes tempos da violência contra a população negra. O casarão, construído em 1731, remete a uma história de escravização; a Praça da Mandioca, antigo Pelourinho, carrega a memória da violência colonial; e, ao redor desse mesmo território, permanece uma cidade onde a violência contra pessoas negras ainda existe. O filme, portanto, não está apenas reconhecendo essa violência. Ele denuncia e não permite que ela seja tratada como algo encerrado no passado.

Ao mesmo tempo, existe uma escolha importante na maneira como essa violência é representada. O curta trabalha com marcas, sons, palavras e gestos que permitem que a violência seja percebida, mas dá ênfase à reexistência e à presença do corpo negro. Assim, encontra um equilíbrio entre olhar diretamente para aquilo que aconteceu, mas, não permitir que a violência seja a imagem dominante de seus personagens.           

Em Derredor, declamado por Dani Souza, esse procedimento aparece no plano-sequência realizado na Praça da Mandioca. Enquanto a cidade continua se movimentando ao redor, a personagem de Dani Souza parece se separar momentaneamente daquele fluxo para afirmar sua própria presença. O poema recupera imagens de algemas, disparos, trabalho e sobrevivência, mas transforma progressivamente esse corpo: ele deixa de ser apenas o corpo atingido pela violência e passa a ser corpo que fala, canta, dança e escreve a própria história.

Em Escárnio, o deslocamento pela escadaria muda a energia do filme. O personagem de Adham Martins, que até então permanecia parado enquanto declamava o verso em flow de rap, começa a subir, e esse movimento acompanha uma mudança no próprio discurso. A fala ganha mais intensidade ao abordar a violência e a necessidade de superá-la. O verso se mistura aos pontos de atabaque e aos ruídos dos carros, fazendo com que a Cuiabá de 2026 e a ancestralidade ocupem o mesmo espaço. O disparo seco que encerra o capítulo interrompe esse movimento de subir a escada como se interrompesse o próprio filme.

Mas esse mesmo território também é território de vida. A presença de lugares como a Casa das Pretas e o terreiro N'zo Nvanju, ampliam o significado desse centro histórico. Existe ali uma vida negra positiva produzida no presente.           

No último capítulo, Extenuada, ocorre uma mudança sensorial. A música se acalma, a câmera se move para trás e para a frente como se respirasse lentamente, e o poema declamado por Day Irê aborda um futuro no qual existem possibilidades de felicidade e justiça. Aqui, o filme, que já tratou do passado e do presente, projeta o futuro. Embora a violência persista e os traumas do passado não tenham sido sanados, a construção do futuro já se faz presente na própria “re-existência” cotidiana.

Por isso, o retorno à Praça da Mandioca ganha um sentido especial. É preciso voltar ao mesmo chão, reconhecer sua história e, a partir dela, imaginar um futuro diferente. A dor permanece e a violência continua, mas elas não são apresentadas como destino definitivo. O filme retorna ao mesmo lugar para afirmar que aquele território também é ocupado por esse novo futuro.


Por Gabriel Venske

 
 
 

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