O Olhar de Antônio
O Olhar de Antônio (2026), documentário dirigido por Glória Albues, tem início com a foto do fotógrafo rosariense já falecido Antônio e uma provocação que evoca o personagem do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis. Se o personagem do livro contou a própria história depois de morto, fica o questionamento: as fotos feitas por Antônio seriam capazes de fazer o mesmo por ele? A resposta do filme vem do jeito mais simples, mostrando que sua vida está guardada nas imagens que ele registrou pelas ruas de Rosário Oeste.
Essa apresentação mistura as fotografia de Antonio à voz a cappella de Tetê Espíndola. O canto tem um peso quase místico e ancestral, que coloca o espectador dentro daquele universo interiorano logo nos primeiros minutos. Na sequência, entra uma senhora trabalhando com argila. A montagem foca nas suas mãos moldando o barro e cruza esses gestos com as fotos que Antônio tirou dela anos atrás. A artesã conta sobre a convivência entre os dois enquanto a tela coloca lado a lado a matéria da terra e o papel da fotografia.
Glória Albues segue esse caminho até o final. Vários moradores de Rosário contam causos sobre o fotógrafo e mostram seus retratos antigos, mas a direção opta por não colocar créditos na tela e por vezes não enquadra o rosto das pessoas. O que importa são as fotos. É através desses depoimentos em segundo plano que desfilam casais de idosos, procissões, novenas, festas religiosas e o ritmo do siriri e do cururu.
A camada sonora ganha muita força por conta própria. O barulho constante de água de rio, o som de correnteza e água borbulhando se misturam com o canto dos passarinhos e um falatório ao longe. Esse ambiente dá movimento para imagens que estão paradas no tempo.
No final, mesmo quem nunca cruzou com Antônio sente que passou a conhecê-lo de perto. O documentário aborda com muita delicadeza como o olhar daquele homem continua vivo na memória e no afeto da sua própria terra.
Por Michael Soares




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